Cirurgia íntima é reflexo da pressão estética? Tudo sobre o procedimento e suas consequências psicológicas

Cirurgia íntima é reflexo da pressão estética? Tudo sobre o procedimento e suas consequências psicológicas
Cirurgia íntima é reflexo da pressão estética? Tudo sobre o procedimento e suas consequências psicológicas. Foto: pexels

A busca por procedimentos estéticos segue em constante ascensão. Entre as inúmeras variedades para repaginar o visual, um dos destaques é a cirurgia íntima, na qual o Brasil é recordista mundial, e só em 2016 realizou 25 mil intervenções, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

+ Vídeo hilário: menina usa fantasia de felino e gato tem reação dramática

Entre os procedimentos íntimos, a ninfoplastia é a mais procurada. Também conhecida como labioplastia, trata-se de uma cirurgia para diminuir a hipertrofia dos pequenos lábios vaginais. Embora alguns casos tenham indicação funcional, estudos apontam que a grande maioria é realizada por estética, fator que alarma a pressão estética feminina na sociedade.

A sexóloga e terapeuta Andreia Paro defende a realização, contanto que tenha a devida indicação. “Para aquela mulher que possui os lábios inferiores maiores, a ponto de causar dor, desconforto e constrangimento por marcar nas roupas, a cirurgia é indicada e trará benefícios para a vida dela.” Caso contrário, a especialista considera preocupante a decisão, e reflete que “o ponto de discussão é o número de jovens mulheres que estão se submetendo a esse procedimento, não por dor, nem por desconforto, mas por uma estética, muito impulsionada pela pornografia mainstream”.

A cirurgia

Atualmente, com a alta tecnologia, a labioplastia a laser pode ser considerada um procedimento minimamente invasivo, segundo Anamarya Rocha, ginecologista exclusiva da JK Estética Avançada — clínica paulista referência em ninfoplastia.

“Aqui [na JK], a ninfoplastia tem uma boa recuperação, melhor do que o meio convencional, porque realizamos o procedimento com o laser Monalisa Touch, a tecnologia mais moderna em termos de cirurgia minimamente invasiva de vulva. Esse aparelho, além de fazer ablação, também regenera o tecido, facilitando a recuperação”, explica a médica.

O procedimento é feito sob anestesia local e sedação por via oral. O tempo de realização é curto — em alguns casos, em menos de uma hora. A agilidade também tende a refletir no pós-operatório, sem necessidade de internação hospitalar. “Oriento que fique pelo menos as primeiras 48 horas fazendo crioterapia (aplicação de gelo no local) e receito medicação para casa por cerca de cinco dias. As atividades sexuais e de lazer podem voltar um mês após o procedimento, e as atividades físicas em torno de 15 a 20 dias, exceto exercícios de fricção na região íntima, como ciclismo.”

A intervenção, assim como todas as outras, precisa respeitar a anatomia e o limite de corte, de modo que as ninfas (pequenos lábios vaginais) não percam suas funções de manter a lubrificação da região e proteger a vagina contra bactérias. Portanto, é evidente a importância de consultar um profissional habilitado — nesse caso um médico ginecologista especialista em ginecologia regenerativa funcional e estética ou um cirurgião plástico.

Indicação

Diferentes fatores podem levar à hipertrofia dos pequenos lábios, desde causas naturais, como pós-puberdade e pós-gestação, devido ao efeito hormonal dessas fases, ou motivos exógenos, como uso de medicação com hormônios, exemplos: chip hormonal, também conhecido como chip da beleza, ou anabolizantes.

Além da questão estética, a hipertrofia traz consequência funcional. “É estética, sim, mas é principalmente funcional. Tem paciente que não consegue dobrar ou cruzar as pernas, porque a ninfa é grande demais, ou seja, dói, incomoda. Algumas não conseguem ir à praia e colocar um biquíni, nem usar roupas justas. Nesses casos a cirurgia é bem indicada”, pondera a ginecologista Anamarya Rocha.

Um estudo francês de 2019 acompanhou 30 pacientes entre três e seis meses após a cirurgia íntima e constatou que 90% delas realizaram o procedimento por desconforto ao se vestir. Os resultados apontaram melhorias funcionais e diminuição do desconforto estético. Além disso, todas as pacientes disseram recomendar a intervenção.

Outros estudos também apontam grande satisfação aos resultados da cirurgia. No entanto, quando realizada sem a devida técnica adequada ao caso, é comum a necessidade de refazê-la para conquistar o objetivo desejado. Anamarya diz que costuma ser procurada por mulheres nessa situação.

Pressão estética

Uma análise realizada com 35 mulheres que se submeteram a cirurgia íntima e 30 que não a fizeram, reforçou a motivação estética do procedimento. Com base no estudo, publicado em 2016 no Aesthetic Surgery Journal, o parceiro sexual, assim como a pressão estética da mídia, foram os principais fatores contribuintes à decisão.

“Essa idealização midiática da beleza que temos que perseguir é uma perigosa distração”, alerta a sexóloga e terapeuta Andreia Paro. Segundo ela, com o advento da internet e o massivo consumo de pornografia mainstream, esse tema ganhou evidência. Somado a isso, o desconhecimento da mulher sobre seu corpo e sua genitália, a falta de referências acadêmicas e bibliográficas da anatomia feminina completa, bem como a falta de troca com outras mulheres.

“Imagina você chegar para as suas amigas e dizer: ‘Quero ver a vulva de vocês, posso?’ Os homens fazem isso o tempo todo, desde pequenos. Por exemplo, no banheiro, eles estão lá com seus pênis expostos. Eles podem ver, é natural. Quando são jovens, eles medem, comparam. Se nós [mulheres] tivéssemos visto várias vulvas desde cedo, saberíamos que não existe um padrão. Talvez nem estivéssemos aqui preocupadas em falar sobre isso”, reflete a terapeuta.

A ginecologista da JK Estética Avançada também reforça a cultura machista, mas destaca que “o tabu sobre essa cirurgia está mais relacionado ao machismo do que à estética íntima”. Ela declara: “Muitas pessoas condenam a estética íntima. No entanto, estética é consequência. Vai ficar mais bonito esteticamente, mas o principal é fazer com que a mulher tenha qualidade de vida, principalmente sexual e pessoal. O caminho da estética é: se você se sente bem consigo mesma, você tem uma vida mais feliz.”

Quando se fala de ninfoplastia, comumente se pensa no desejo de uma vulva infantil/jovial, o que preocupa Andreia. No entanto, Anamarya descarta que essa seja a intenção. “As mulheres que fazem a cirurgia não querem voltar a ser adolescentes, ninguém quer. Elas só querem estar bem consigo mesmas, e se o aspecto melhor para elas é de uma maneira mais jovem, então é esse o resultado que terão. Não tem que confundir as coisas. A mulher só quer envelhecer bem, com qualidade de vida e autoestima”, afirma a médica.

Afinal, a ninfoplastia é a solução?

A sexóloga descarta que a ninfoplastia, quando realizada exclusivamente por estética, seja a solução. Ela acredita que a insegurança feminina é multifatorial. “Talvez, com a cirurgia íntima, essa mulher se sinta melhor em algum nível. No entanto, em geral, a insegurança está relacionada à subjetividade e às experiências de vida da pessoa. Já vi mulheres maravilhosas, lindas e muito inseguras”, afirma.

Buscar pela terapia é a sugestão de Andreia. Ela reforça a necessidade de levar em consideração que a modificação corporal através da cirurgia possui riscos e possibilidades de erros cirúrgicos, e defende a importância da plena consciência ao se submeter a tal intervenção, visto que o resultado é irreversível.

Um trabalho realizado na Universidade de Fortaleza, apresentado no Congresso Acervo+ em 2021, revisou a literatura científica para compreender as motivações e aspectos psicológicos que levam mulheres a se submeter ao procedimento. Segundo uma das autoras, é raro aconselhar a psicoterapia antes do procedimento, pois não há comprovação de que possa diminuir a insatisfação.

Estar realmente decidida é um fator determinante para a realização do procedimento. Anamarya afirma que não o faz em pacientes indecisas. A médica considera a terapia um método auxiliar na autoestima, mas não acredita que seja a solução. “Se a mulher não estiver bem consigo mesma, com o próprio corpo, acho difícil só a terapia ajudar. Ela precisa se enxergar naquele corpo, gostar do que vê no espelho.”

Andreia, por sua vez, ressalta que a terapia apoia na investigação sobre a autoimagem e os fatores de insegurança feminina. De acordo com ela, o objetivo é ganhar consciência sobre esses processos para poder ressignifica-los. “O autoamor, para mim, é uma jornada. Nós mulheres somos desde muito novas atravessadas por essas ideias de que, para sermos aceitas e amadas, precisamos ser de uma determinada forma — não apenas fisicamente, como também em nosso comportamento, nosso estilo e como nos expressamos em sociedade”, pondera.

Em 2016, psicólogas australianas publicaram um estudo realizado com 48 mulheres adultas que haviam se submetido ao procedimento em períodos de três a 204 meses, a fim de identificar o efeito da labioplastia. Os resultados em questão apontaram grande satisfação da maioria das pacientes com sua nova estética íntima, bem como aumento da satisfação sexual e bem-estar psicológico. Já as pacientes que sofreram algum tipo de complicação pós-cirúrgica [em menor porcentagem] foram relacionadas à menor satisfação.

Como tomar uma decisão consciente

Optar por uma intervenção cirúrgica não precisa ser considerado errado, contanto que seja uma decisão consciente. Essa é uma linha tênue, na qual é preciso compreender se tal desejo é pessoal, para se sentir melhor consigo, ou motivado por pressão estética de terceiros.

Para ajudar nesse processo, a terapeuta Andreia Paro indica alguns passos indispensáveis para praticar o autoamor e, a partir disso, identificar a causa desse desejo:

• Se acolher e silenciar a voz interna julgadora. “Somos muito mais agressivas conosco mesmas, e isso requer presença e observação de si e dos pensamentos.”;

• Se observar nua no espelho, com calma. “Respire e olhe para o corpo que te trouxe até este momento. Ele é seu, único, e isso é de uma beleza. Ninguém no mundo é igual a você.”;

• Compreender que seu corpo passa por transformações ao longo da vida, e você pode ativamente provocar mudanças nele. Comece com o cuidado com a alimentação, descanso adequado, prática de atividades físicas e, sobretudo, se permita ter prazer, fazendo coisas que te dão tesão, incluindo a masturbação;

• Se informar sobre procedimentos estéticos não invasivos e, se desejar, optar por eles;

• Se achar necessário partir para um procedimento cirúrgico, busque por informações seguras, tire dúvidas com quem já o fez e se consulte, ao menos, com dois ou três médicos especialistas.

Back to top