
Chás “milagrosos”, cápsulas naturais e promessas de cura: especialistas alertam para riscos escondidos
Chás que prometem emagrecimento rápido, cápsulas naturais que dizem curar várias doenças e misturas de ervas vendidas como solução para diferentes problemas de saúde. Esses produtos fitoterápicos “milagrosos” estão cada vez mais populares — mas especialistas fazem um alerta importante: muitos deles não têm eficácia comprovada e podem até causar sérios danos ao organismo.
Apesar de serem divulgados como alternativas naturais e seguras, diversos desses produtos são vendidos de forma irregular, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mesmo assim, continuam disponíveis facilmente na internet e em lojas de produtos naturais por todo o Brasil.
Preocupada com o aumento desse tipo de produto, a Anvisa publicou recentemente uma cartilha orientando a população sobre como identificar fitoterápicos seguros e como reconhecer propagandas enganosas.
Nem todo produto “natural” é seguro
Fitoterápicos são medicamentos produzidos a partir de plantas medicinais, mas precisam seguir regras rigorosas. Eles só podem ser fabricados por indústrias farmacêuticas ou manipulados em farmácias autorizadas pela vigilância sanitária.
Antes de chegar ao mercado, esses produtos passam por avaliações da Anvisa, que analisa a composição, a qualidade e se realmente possuem eficácia terapêutica.
O problema é que muitos produtos vendidos online ou em lojas não passam por esse controle.
“A primeira coisa que o paciente deve fazer é verificar se está utilizando um fitoterápico realmente regulamentado ou um produto irregular”, explica o médico Aécio Flávio Meireles Souza, da Sociedade Brasileira de Hepatologia.
Segundo ele, os riscos vão desde contaminação por fungos e bactérias até a presença de substâncias escondidas, como anabolizantes ou compostos químicos não declarados.
O fígado é um dos órgãos mais afetados
Entre os órgãos que mais sofrem com esses produtos está o fígado, responsável por metabolizar muitas das substâncias presentes nessas fórmulas.
O consumo excessivo de compostos chamados hepatotóxicos pode provocar lesões no órgão e até casos graves de hepatite fulminante.
Algumas ervas frequentemente encontradas nesses produtos — como chá-verde, cavalinha, melissa, sene, centelha asiática, espirulina e garcinia — já têm registros de toxicidade hepática quando consumidas em altas doses.
O perigo aumenta ainda mais quando várias plantas são misturadas em um único produto.
“Quando diferentes ervas são combinadas, pode ocorrer uma série de interações entre elas. Isso pode concentrar várias substâncias prejudiciais ao fígado em uma única fórmula”, explica o hepatologista.
Produtos encapsulados, como cápsulas de ervas e chás concentrados, costumam apresentar riscos ainda maiores justamente por terem doses mais altas dos princípios ativos.
O caso que chamou atenção dos médicos
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 2022, quando a enfermeira Mara Abreu morreu após complicações de um transplante de fígado.
Ela desenvolveu hepatite fulminante depois de consumir um chá emagrecedor em cápsulas que combinava cerca de 50 ervas diferentes.
Casos como esse reforçam o alerta de especialistas sobre o consumo indiscriminado de produtos naturais vendidos como soluções rápidas para emagrecimento ou saúde.
Chá emagrece mesmo?
Outra promessa muito comum desses produtos é a perda de peso rápida. No entanto, endocrinologistas afirmam que nenhum chá é capaz de provocar emagrecimento real.
Em muitos casos, o efeito observado é apenas aumento da produção de urina, o que pode causar desidratação e dar uma falsa impressão de perda de peso.
Além disso, algumas substâncias podem interferir no funcionamento de outros medicamentos.
Um exemplo é o carvão ativado, popularizado nas redes sociais e por celebridades como suposto aliado para emagrecimento.
Na medicina, ele é utilizado em situações específicas de intoxicação porque absorve substâncias no sistema digestivo. Porém, essa mesma característica pode atrapalhar a absorção de medicamentos, vitaminas e minerais importantes para o organismo.
Como saber se um fitoterápico é seguro
Especialistas recomendam sempre verificar se o produto possui registro ou notificação ativa na Anvisa.
Produtos registrados apresentam um número de registro na embalagem. Já os fitoterápicos notificados trazem uma frase indicando que foram comunicados à agência.
Outra forma de verificar a autenticidade é pesquisar o nome do produto no site oficial da Anvisa.
Alguns sinais também podem indicar que o produto é irregular, como:
• promessas de cura rápida ou milagrosa
• termos como “super”, “extra forte” ou “max”
• imagens de partes do corpo no rótulo
• mistura de muitas ervas na mesma fórmula
• ausência do nome científico da planta
Segundo a Anvisa, cerca de 43% dos pedidos de registro de fitoterápicos são negados por não cumprirem os requisitos necessários — uma taxa muito maior do que a observada em medicamentos tradicionais.
Plantas medicinais podem trazer benefícios
Apesar dos riscos associados aos produtos irregulares, especialistas lembram que os fitoterápicos regulamentados podem trazer benefícios reais quando usados corretamente.
“Muitos medicamentos importantes surgiram a partir de plantas medicinais. Mas isso não significa que qualquer produto natural seja seguro”, explica a médica Silvia Kawakami Pantaleão, especialista em medicina integrativa.
Segundo ela, o principal cuidado é evitar a automedicação.
“O ideal é sempre consultar um profissional de saúde antes de iniciar o uso de qualquer planta medicinal. A dose correta é o que diferencia um tratamento de um possível veneno”, alerta.
Fonte: Agência Einstein














